sexta-feira, 30 de maio de 2014

24/04/12
Entrevista | Intérprete Jessie Rezende
"O aluno é simplesmente 'jogado' numa escola, sem o apoio de professores, ou família"
Arquivo pessoal
"Muita gente acha que não precisa aprender
Libras", diz Jessie
Marcos Nunes Carreiro
Nesta terça-feira, 24, são comemorados dez anos de sanção da lei n° 10.436, que dispõe sobre a Libras (Língua Brasileira de Sinais). E nessa data, “tem gente do Brasil inteiro em Brasília compartilhando a alegria de ter dez anos que a Libras é reconhecida no nosso país”, como afirma Jéssie Rezende Araújo ao Jornal Opção. Ela é intérprete da Língua de Sinais e trabalha com crianças entre 9 e 12 anos na Escola Municipal Deraldo Lisboa dos Santos, no Jardim Rosas do Sul, em Aparecida de Goiânia. Jéssie é aluna do 7° período do curso de licenciatura em Letras-Libras, pela UFG (Universidade Federal de Goiás), e fala a respeito da visão que o Surdo tem da sociedade, sobre as condições para os intérpretes que tentam integrar essas pessoas à comunidade, assim como criar nelas o senso de cultura e identidade Surdas. Acompanhe a entrevista:
Qual a forma correta de se chamar: “surdo”, ou “deficiente auditivo”?
O termo “deficiente auditivo” é utilizado mais no contexto médico. Nós usamos Surdo, com letra maiúscula, para aqueles que possuem e compartilham a cultura e identidade Surda, que é o uso da Libras, a militância pela causa, entre outros ideais. “Deficiente auditivo” deixou de ser usado porque se viu que ser Surdo não é “carregar” uma deficiência. Além da diferença linguística, o Surdo tem uma identidade própria, pois ele luta pelo uso da Libras e seu reconhecimento na sociedade. Hoje, por exemplo, tem gente do Brasil inteiro em Brasília cobrando escola bilíngue para o Surdo e compartilhando a alegria de ter dez anos que a libras é reconhecida no nosso país.

Defina cultura e identidade Surda.
A cultura Surda é o conjunto de costumes e hábitos que os Surdos têm em comum. E como a história do Surdo é de muito sofrimento e luta, esse é um ponto muito forte na comunidade Surda. Estamos sempre lutando, porque foi assim que chegamos até aqui. E a identidade é composta pelo compartilhar dessa cultura, o Surdo que tem essa identidade, luta por ideais, como o respeito à sua Língua e cultura.
Existem diferenças entre Libras e Português?
O português é uma língua oral-auditiva e a Libras é uma língua visuo-espacial. O sistema SVO (Sujeito-Verbo-Objeto) prevalece. Porém, o Surdo tem certa dificuldade com conjugações verbais e o uso de preposições e conjunções, pois a Libras tem uma estrutura diferente. Por exemplo, nós aprendemos a falar ouvindo e aprendemos a escrever falando. Então, o Surdo não acompanha o processo de aprendizagem da Língua Portuguesa, pois para os ouvintes, as palavras representam sons (que é o intuito da escrita alfabética), e para os Surdos, cada palavra tem um significado, o que passa a parecer uma escrita ideográfica.
As dificuldades são muitas no que se trata na aprendizagem da língua portuguesa pelo Surdo?
Existem muitas complicações, pois como o Surdo tem dificuldade de aprender a estrutura do português, muita gente acha que não precisa aprender Libras porque ‘é só conversar escrevendo’, como se todos os Surdos dominassem o português. E existem muitos Surdos que estão inseridos nas escolas e não têm um intérprete de Libras. A demanda é grande e, infelizmente, não tem a quantidade necessária de profissionais qualificados. Mas apesar de o papel do intérprete ser muito importante, a luta da comunidade Surda atualmente (inclusive hoje em Brasília), é por escolas bilíngues, onde tenhamos uma sala de aula do ensino regular, com alunos ouvintes e Surdos, e que o professor saiba Libras e dê as aulas em Libras.

O apoio dado ao Surdo nas escolas é o ideal?
Esse apoio ainda é um pouco condicionado. Nas escolas implantou-se a inclusão sem capacitar os funcionários das escolas. Por exemplo, aqui na escola em que eu trabalho, as professoras e funcionários administrativos não sabem nem Libras, nem o que ela é, nem nada sobre a cultura e a identidade Surda. Na UFG os Surdos já têm a prova de vestibular em Libras e intérprete na sala aula, mas só no curso de Letras-Libras. Assim, se o Surdo quer fazer outro curso, ele não tem um intérprete.

E a condição do intérprete?
Na verdade, o intérprete é meio largado. Eu, por exemplo, não sou pedagoga e, teoricamente, apenas traduzo as aulas. Mas na verdade, eu preciso preparar aulas e atividades, pois meu aluno não acompanha as atividades propostas pela professora. Assim, o aluno é simplesmente "jogado" numa escola, sem o apoio dos professores, e, principalmente, da família. As dificuldades familiares afetam em muito o aprendizado do aluno Surdo. Neste aspecto, o papel do intérprete é integrá-lo aos demais alunos, ao mesmo tempo em que deve fazer com que ele tenha a capacidade de auto-integração. E tentamos fazer essa integração, ensinando Libras para os demais alunos, por exemplo, e trabalhando individualmente com o aluno Surdo sua capacidade dele de interagir. Na faculdade nós temos disciplinas de Políticas da Educação e Psicologia da Educação e essa realidade é bastante discutida, pois é com o que nos deparamos no dia-a-dia.

Os professores são receptivos com os intérpretes? Ajudam no andamento da aula com os alunos Surdos?
Nem todos os professores são receptivos. A professora regente da minha sala é bastante receptiva e interessada, mas alguns professores não gostam muito da ideia de ter "outra pessoa" na sala de aula, muito menos em ter um aluno "especial".

























































































































































































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