sexta-feira, 30 de maio de 2014






Maria Cristina da Cunha Pereira fala sobre o ensino de Língua Portuguesa para surdo



Qual é a relação entre a língua de sinas e a Língua Portuguesa?









Maria Cristina As línguas de sinais se distinguem das línguas orais porque se utilizam do canal visual-espacial e não oral-auditivo. Porém, ambas possuem um léxico, isto é, um conjunto de símbolos convencionais, e uma gramática com um conjunto de regras que regula o uso desses símbolos. Primeiramente se dizia que a língua de sinais facilitava a aquisição da Língua Portuguesa. E eu perguntava: facilita como? Que ela tem um papel fundamental nessa aprendizagem não há dúvida. Mas como? Com o tempo e depois de muita pesquisa, compreendemos que é preciso mostrar aos alunos que aquilo que é expresso na língua de sinais também pode ser representado na Língua Portuguesa escrita. O professor precisa escrever o que as crianças estão comunicando por meio de sinais. Outra prática fundamental é a leitura feita pelo professor dos textos em língua de sinais. É essa leitura que possibilita a atribuição de sentido àquilo que está escrito no papel em português. Portanto, é necessário que a Língua Portuguesa seja o tempo todo apresentada e interpretada em Libras. Um trabalho de tradução mesmo.

Quais são as condições básicas para se alfabetizar uma pessoa surda?
Maria Cristina O ponto de partida é a criança surda saber a língua de sinais. O ideal é que o professor também saiba a língua de sinais para que ele possa ser o mediador entre as duas línguas. No entanto, considerando que as crianças surdas podem estar em salas regulares com crianças ouvintes, serão necessários dois professores: o professor da sala (regente) e um professor especialista em surdez, que possa fazer o papel de mediador entre a língua de sinais e a Língua Portuguesa. Ter apenas o professor da sala trabalhando com um intérprete que não entenda de alfabetização não é suficiente no início da escolaridade.

Nesse caso, qual é o trabalho do intérprete na sala de aula?

Maria Cristina O intérprete só interpreta. É fundamental ele ter clareza do seu papel. Ele não pode ser confundido com o professor porque há o risco do aluno surdo não saber a quem recorrer. O professor da sala não pode se sentir isento da responsabilidade de ensinar os conteúdos ao aluno surdo. E o intérprete precisa garantir ao aluno surdo o acesso ao conteúdo que será trabalhado em Língua Portuguesa. Toda comunicação precisa ser feita em língua de sinais para a criança surda.

Como deve ser o processo de alfabetização dos alunos surdos?
Maria Cristina Depende da concepção de alfabetização do educador e da instituição. Se o educador alfabetiza ouvintes com a cartilha, vai alfabetizar ossurdos com a cartilha também. E eles vão se sair muito bem na decodificação. Mas o resultado não vai ser muito diferente do aprendizado da criança ouvinte: eles não vão entender o que estão lendo e também não vão conseguir escrever. Há grandes chances de todos eles se tornarem analfabetos funcionais. Agora, se a gente acredita que alfabetização e letramento estão juntos, é preciso inserir a criança surda nas práticas letradas. Do mesmo jeito que se faz com as crianças ouvintes. Só que, com as crianças ouvintes o que se busca é relacionar aquilo que está escrito com aquilo que se fala e ouve. Com os surdos é preciso relacionar o escrito com o que se mostra e vê, ou seja, as imagens, os movimentos, as expressões faciais e os sinais. É possível alfabetizar, mas insisto: na sala de aula com alunos ouvintes não é um único professor que vai dar conta. É preciso ter, junto com o professor da turma, um professor especialista que saiba a lingua de sinais.

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